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O que o teste de vício em celular mostra
O teste usa a SAS-SV (Smartphone Addiction Scale – Short Version), uma escala de 10 frases criada na Coreia do Sul por Kwon e colaboradores, em 2013, para identificar o uso problemático do smartphone. Em vez de perguntar quantas horas você passa na tela, ela olha para o que esse uso faz com o resto da sua vida: tarefas adiadas, concentração que escapa, irritação quando o aparelho não está por perto, a sensação de que é difícil parar.
A versão que você responde aqui é a brasileira, adaptada por Andrade e colaboradores em 2020 e testada em 718 pessoas: 387 universitários e 331 adultos de todos os estados. O resultado é uma pontuação de 10 a 60, lida contra os pontos de corte do estudo original, e entra no seu mapa do MindScan™ na dimensão de comportamentos, ao lado de jogos, apostas, compras e impulsividade.
Uma ressalva desde já, porque ela muda a leitura: os cortes da SAS-SV vieram de adolescentes coreanos. No Brasil ainda não existe corte validado para adultos. O resultado é um sinal para observar, não um veredito. Rastreio, não diagnóstico.
Nomofobia: o que é
Nomofobia é o nome popular para o desconforto, às vezes ansiedade de verdade, de ficar sem o celular: sem bateria, sem sinal, sem crédito ou simplesmente longe dele. A palavra vem do inglês no mobile phone phobia, “fobia de ficar sem celular”, e virou termo corrente na última década. Um grupo de pesquisadores do Rio de Janeiro levou o tema para o contexto clínico, perguntando se aquilo era dependência do ambiente virtual ou uma forma de fobia social (King e colaboradores, 2013). Em 2015, Yildirim e Correia publicaram um questionário específico para a nomofobia, o NMP-Q.
Apesar do sufixo, nomofobia não é uma fobia no sentido técnico e não aparece como diagnóstico no DSM-5 nem na CID-11. É um rótulo útil para um padrão que muita gente reconhece no espelho: o celular deixou de ser ferramenta e virou extensão do corpo, e a falta dele incomoda mais do que deveria.
Como a nomofobia aparece no dia a dia
- Conferir se o celular está no bolso várias vezes, mesmo sabendo que está.
- Sentir um aperto quando a bateria cai abaixo de 20%, ou não sair de casa sem carregador.
- Desbloquear a tela por reflexo, sem motivo, e só perceber depois.
- Ficar irritado(a) ou inquieto(a) num lugar sem sinal.
- Dormir com o aparelho ao alcance da mão e checá-lo ao acordar no meio da noite.
- Sentir o celular vibrar quando ele não vibrou.
Nenhum desses sinais, sozinho, quer dizer muita coisa. O celular concentra trabalho, banco, mapa, família e amigos; é natural sentir falta dele. O que muda o quadro é a intensidade e o custo: quando o desconforto toma conta, quando o uso atropela o que você tinha planejado, quando outras pessoas começam a comentar.
Nomofobia, vício em celular e uso intenso
Os três termos se misturam nas buscas, mas descrevem coisas diferentes.
- Uso intenso é tempo de tela alto. Pode ser trabalho, estudo ou lazer escolhido, sem prejuízo nenhum.
- Nomofobia é o medo ou o desconforto de ficar sem o aparelho: o lado da falta.
- Uso problemático, o que se chama popularmente de vício em celular, é o padrão em que o uso escapa do controle e começa a cobrar um preço em sono, trabalho, estudos, relações ou no próprio corpo.
A SAS-SV mede o terceiro e toca no segundo. Frases como “Não há nada mais difícil do que ficar sem meu celular” e “Eu fico impaciente e irritado quando estou sem meu celular” captam justamente a parte da falta. Mas ela não é um questionário de nomofobia: quem quer medir só a nomofobia usa instrumentos próprios, como o NMP-Q.
“Vício” também é palavra de uso popular. Nem o DSM-5 nem a CID-11 trazem dependência de celular como diagnóstico. A pesquisa ainda discute se esse padrão é uma dependência comportamental, um problema de controle dos impulsos ou a face visível de outra coisa, como ansiedade, humor baixo, dificuldade de atenção ou solidão.
Por que é tão difícil largar o celular
Boa parte do que existe no celular foi desenhada para prender a atenção. A notificação chega em hora incerta, o feed não tem fim, o vídeo seguinte começa sozinho. Recompensas que vêm de vez em quando, sem aviso, são das mais difíceis de ignorar: você confere dez vezes sem nada novo e, na décima primeira, há uma mensagem. Esse padrão ensina o cérebro a continuar conferindo.
Some a isso o fato de que o celular resolve muita coisa ao mesmo tempo. Ele distrai do tédio, alivia a ansiedade por alguns segundos, preenche o silêncio numa fila, dá a sensação de estar por dentro. Nada disso é defeito de caráter. É por isso que força de vontade, sozinha, costuma render pouco, e que mudanças de ambiente, como desligar notificações, tirar o aparelho do quarto ou criar horários sem tela, costumam ajudar mais.
Quando o uso vira problema
Três sinais separam o uso intenso do uso problemático. O primeiro é a perda de controle: usar por mais tempo do que pretendia, de novo e de novo. O segundo é o prejuízo: trabalho, estudo, sono ou relações começam a pagar a conta. O terceiro é o desconforto na falta: irritação, inquietação, a cabeça voltando para o aparelho mesmo quando ele não está na mão. A SAS-SV pergunta exatamente por esses três pontos, em frases do dia a dia.
Para quem é o teste — e quando não usar
É para adultos que querem olhar com mais precisão para o próprio uso do celular: quem sente que perde horas sem perceber, quem já ouviu de alguém próximo que não larga o celular, quem quer um ponto de partida antes de mudar hábitos. O MindScan™ é para maiores de 18 anos. A escala original nasceu com adolescentes, mas aqui ela é respondida por adultos, sobre si mesmos.
Não use o resultado:
- para rotular outra pessoa: as frases precisam ser respondidas por quem usa o aparelho;
- como argumento numa discussão, do tipo “viu, o teste mostrou que você é viciado”;
- no lugar de uma conversa com um profissional, se o celular já está ligado a sofrimento importante, sono muito prejudicado ou queda forte no trabalho ou nos estudos.
Como funciona
São 10 frases sobre o seu uso atual do celular, sem uma janela de tempo fixa. Para cada uma, você marca o quanto concorda, numa escala de 6 pontos: discordo totalmente, discordo, discordo um pouco, concordo um pouco, concordo e concordo totalmente. Não há opção neutra; é assim no original, e isso pede que você escolha um lado.
A pontuação é a soma das respostas, de 10 a 60. Nenhuma frase é invertida: quanto mais alta a soma, mais sinais de uso problemático. Leva cerca de 2 minutos. As frases estão logo abaixo, na íntegra, do jeito que aparecem no teste. Três delas (a 4, a 7 e a 8) foram adaptadas na versão brasileira, e a 8 cita WhatsApp e Instagram.
Como interpretar o resultado
O resultado cai em uma de três faixas, definidas pelos cortes do estudo original: 31 para meninos e 33 para meninas. O MindScan™ usa os mesmos números, 31 para homens e 33 para mulheres.
| Pontuação | Faixa | O que o resultado diz |
|---|---|---|
| 10 a 30 | Abaixo dos cortes de referência | Por esta escala, seu uso do celular não aparece como problemático. |
| 31 a 32 | Entre os cortes de referência | A pontuação fica entre os dois cortes. Vale observar o quanto o celular toma o lugar de outras coisas no seu dia. |
| 33 a 60 | Acima dos cortes de referência | Suas respostas mostram sinais de uso problemático: dificuldade de ficar sem o aparelho, perda de controle do tempo e prejuízo em outras áreas. |
Em qualquer faixa, o texto do resultado repete a ressalva: os cortes vieram de adolescentes coreanos, e no Brasil ainda não há corte validado para adultos. Na própria validação brasileira, 39,4% das pessoas ficaram acima dos cortes, um número alto que reforça a cautela ao aplicar cortes de outra população. Por isso, além da faixa, vale olhar para as frases em que você deu notas mais altas: elas dizem onde o celular pesa mais.
Na faixa mais alta, o resultado sugere ler como sinal, não como diagnóstico, e, se o uso pesa no seu dia, conversar com um profissional.
O que este teste não faz
- Não diagnostica. Não existe diagnóstico oficial de vício em celular, e a SAS-SV é um instrumento de rastreio.
- Não mede tempo de tela. Duas pessoas com as mesmas horas de uso podem ter pontuações muito diferentes. O que conta é a perda de controle e o prejuízo.
- Não mede a nomofobia isoladamente. Toca nela, mas mede o uso problemático como um todo.
- Não explica a causa. O uso excessivo do celular muitas vezes é a ponta visível de outra coisa: ansiedade, humor baixo, tédio, solidão, dificuldade de atenção. A escala mostra o padrão, não o porquê.
- Não tem corte brasileiro para adultos. Além disso, a estrutura estatística da escala na amostra brasileira ficou abaixo do recomendado, embora a confiabilidade tenha sido boa.
Nomofobia × ansiedade
Quando a falta do celular traz aperto no peito, inquietação e pensamentos repetitivos (“e se alguém precisar de mim?”), a pergunta natural é se aquilo é nomofobia ou ansiedade. Muitas vezes é as duas coisas. O celular vira um regulador: conferir a tela alivia por alguns segundos, e o alívio reforça o hábito de conferir de novo. Com o tempo, a pessoa passa a precisar do aparelho para se sentir tranquila, e não só para se comunicar.
Duas perguntas ajudam a separar. A inquietação aparece só longe do celular, ou em muitas outras situações também? E quando o celular está na mão, a tensão some ou continua? Se a ansiedade está espalhada pelo dia, vale olhar para ela diretamente no teste de ansiedade. E se o seu tempo de tela é sobretudo jogo, o teste de vício em jogos usa uma escala feita para isso.
Próximo passo
Responda as 10 frases e veja onde a sua pontuação cai. Se quiser contexto, o mapa completo do MindScan™ coloca o uso do celular ao lado das outras dimensões, como sintomas, temperamento e impulsividade, e ajuda a ver se o aparelho é a questão principal ou o sinal de outra coisa. Se o resultado pesa no seu dia, leve-o para uma conversa com um profissional de saúde mental. Rastreio, não diagnóstico.
As 10 perguntas do teste
Por favor, assinale qual das afirmações abaixo de uma escala de 1 (discordo totalmente) a 6 (concordo totalmente) se aplica ao seu uso de celular.
Ver todas as perguntas
- Deixo de fazer tarefas ou trabalhos planejados devido ao uso do celular.
- Tenho dificuldade para me concentrar na aula, nas lições de casa ou no trabalho devido ao uso do celular.
- Sinto dor nos punhos ou pescoço enquanto uso o celular.
- Não há nada mais difícil do que ficar sem meu celular.
- Eu fico impaciente e irritado quando estou sem meu celular.
- Fico pensando no meu celular mesmo quando não o estou usando.
- Eu nunca vou deixar de usar meu celular, mesmo se este uso cause problemas ou efeitos negativos na minha vida.
- Tenho que checar constantemente meu celular para não perder as publicações nas redes sociais (WhatsApp, Twitter, Facebook, Instagram, por exemplo).
- Uso meu celular por mais tempo que pretendia.
- As pessoas à minha volta me dizem que uso excessivamente o celular.
Perguntas frequentes
O que é nomofobia?
Nomofobia é o desconforto, às vezes ansiedade de verdade, de ficar sem o celular: sem bateria, sem sinal ou longe do aparelho. O nome vem do inglês no mobile phone phobia. Não é um diagnóstico oficial, e sim um termo popular para descrever esse padrão.
Como saber se sou viciado em celular?
Mais do que as horas de tela, olhe para o custo: tarefas adiadas, sono atrasado, concentração que escapa, irritação longe do aparelho e pessoas próximas reclamando do seu uso. A SAS-SV reúne esses sinais em 10 frases e compara sua pontuação com cortes de referência. É um rastreio, não um diagnóstico.
Quais são os sintomas da nomofobia?
Os sinais mais comuns são conferir o celular o tempo todo, sentir aperto quando a bateria acaba ou o sinal some, ficar inquieto(a) longe do aparelho e desbloquear a tela por reflexo, sem motivo. Sozinhos, são comuns e dizem pouco. Passam a contar quando são intensos e atrapalham a rotina.
Nomofobia é doença? Tem CID?
Não. Nomofobia e dependência de celular não aparecem como diagnóstico no DSM-5 nem na CID-11. A pesquisa ainda discute se o uso problemático do smartphone é uma dependência comportamental ou a expressão de outros quadros, como ansiedade e depressão.
Qual a diferença entre nomofobia e vício em celular?
Nomofobia é o medo ou o desconforto de ficar sem o aparelho. Vício em celular, ou uso problemático, é o padrão em que o uso escapa do controle e traz prejuízo. Os dois costumam andar juntos; a SAS-SV toca nos dois, mas mede principalmente o segundo.
O teste de vício em celular é confiável?
A SAS-SV tem validação publicada, inclusive no Brasil (Andrade e colaboradores, 2020), com boa confiabilidade. Os limites: os cortes vêm de adolescentes coreanos, não há corte brasileiro para adultos e a estrutura estatística na amostra brasileira foi fraca. Use o resultado como sinal, não como veredito.
Quantas horas de celular por dia é demais?
Não existe um número validado. Quatro horas de celular a trabalho podem não custar nada, e uma hora tirada do sono pode custar muito. Por isso a SAS-SV não pergunta horas: pergunta o que o uso faz com o resto da sua vida.
Vício em celular tem tratamento?
O uso problemático costuma ceder com mudanças de hábito e, quando há sofrimento ou prejuízo, com acompanhamento profissional, em geral psicoterapia. Quando o celular serve de válvula para ansiedade, humor baixo ou dificuldade de atenção, cuidar disso também faz diferença. Um profissional ajuda a separar uma coisa da outra.
O teste serve para adolescentes?
A SAS-SV nasceu num estudo com adolescentes, mas o MindScan™ é só para maiores de 18 anos, e cada pessoa responde sobre si mesma. Para olhar o uso de um filho ou filha, o caminho é conversar com um profissional que atenda essa faixa etária.
Quanto tempo leva o teste? É de graça?
São 10 frases e cerca de 2 minutos. O teste é gratuito e o resultado aparece na hora, com a pontuação de 10 a 60 e a faixa em que ela cai.
Instrumento e referências
SAS-SV, Escala de Dependência de Smartphone (versão curta) — instrumento com validação publicada. Kwon e colaboradores (2013), versão brasileira de Andrade e colaboradores (2020), ambas sob licença CC BY. Os pontos de corte vêm de adolescentes coreanos; não há corte brasileiro para adultos.
- Kwon M, Kim DJ, Cho H, Yang S. The Smartphone Addiction Scale: development and validation of a short version for adolescents. PLoS One. 2013;8(12):e83558. doi:10.1371/journal.pone.0083558
- Andrade ALM, Kim DJ, Caricati VV, Martins GDG, Kirihara IK, Barbugli BC, et al. Validity and reliability of the Brazilian version of the Smartphone Addiction Scale-Short Version for university students and adult population. Estud Psicol (Campinas). 2020;37:e190117. doi:10.1590/1982-0275202037e190117
- King ALS, Valença AM, Silva ACO, Baczynski T, Carvalho MR, Nardi AE. Nomophobia: dependency on virtual environments or social phobia? Comput Human Behav. 2013;29(1):140-4. doi:10.1016/j.chb.2012.07.025
- Yildirim C, Correia AP. Exploring the dimensions of nomophobia: development and validation of a self-reported questionnaire. Comput Human Behav. 2015;49:130-7. doi:10.1016/j.chb.2015.02.059
Curadoria científica
Dr. David Sosa Dias, psiquiatra
CRM-RJ 52.86494-3 · RQE 19051. Formação no IPUB/UFRJ e coautoria da validação brasileira do MSI-BPD. Responsável técnico pelo MindScan™ e pela escolha dos instrumentos. Conheça.
Atualizado em 23 de outubro de 2026 · revisão clínica: Dr. David Sosa Dias.
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